Toda marca tem uma história de origem, mas poucas nascem de uma frustração tão pessoal e tão específica quanto a da Atlea. Nesta conversa franca, Tainara de Souza — fundadora da marca, moradora de Florianópolis, em Jurerê Internacional, e cliente número um das próprias peças — fala sobre os três anos de desenvolvimento antes do lançamento, a disciplina de treinar cinco vezes por semana e por que ela recusou tantos atalhos que teriam tornado tudo mais fácil e mais barato.
Como surgiu a ideia da marca?
Surgiu de um incômodo que eu vivia na pele, literalmente. Eu treino há anos, cinco vezes por semana, com foco em glúteos e membros inferiores, e sempre esbarrava no mesmo problema: comprava peças bonitas que ficavam transparentes no agachamento, que escorregavam, que desbotavam depois de poucas lavagens. Eu não queria mais uma marca de roupa fitness. Eu queria resolver, para mim mesma, um problema que nenhuma peça no meu armário resolvia. A Atlea nasceu dessa insatisfação concreta, não de um plano de negócios abstrato.
Você diz que é a cliente número um da marca. O que isso significa na prática?
Significa que eu não aprovo nenhuma peça que eu mesma não usaria no meu treino mais pesado. Cada modelo passa pelo meu corpo antes de passar por qualquer outra coisa. Eu agacho com ela, faço elevação pélvica, uso por um dia inteiro para ver como o tecido se comporta depois do treino. Se marca, se incomoda no cós, se fica transparente na amplitude máxima, não entra. Ser a própria cliente é o que me impede de fazer concessões — porque quem vai usar a peça errada sou eu, antes de qualquer pessoa.
Foram três anos de desenvolvimento antes do lançamento. Por que tanto tempo?
Porque eu me recusei a lançar algo que não estivesse certo. Testar tecido leva tempo. Descobrir que uma peça sai perfeita da gaveta mas fica impossível depois de um dia dentro da bolsa só acontece depois de meses de uso real, nunca na prova rápida do provador. Eu poderia ter lançado em seis meses com peças medianas, como tanta gente faz. Preferi esperar três anos até ter certeza de que cada detalhe — a gramatura, o cós, a costura, o comportamento do tecido depois de dezenas de lavagens — estava resolvido. Foi uma decisão difícil no curto prazo e a mais acertada no longo.
Que tipo de atalho você recusou nesse processo?
Vários. O mais tentador foi o preço do tecido. Existe uma diferença enorme entre um tecido que parece bom no primeiro uso e um que continua bom no centésimo. O barato entrega a primeira impressão; o caro entrega a durabilidade. Eu escolhi tecnologias como o Emana® e critérios de opacidade que encarecem a peça, mas que fazem ela durar e se comportar bem de verdade. Recusei também a pressa de lançar coleções gigantes. Prefiro poucas peças que eu defendo com convicção a um catálogo enorme cheio de coisas em que eu não acredito.
Você mora em Florianópolis, em Jurerê. Isso influencia a marca?
Influencia mais do que eu imaginava no começo. Aqui o clima é quente boa parte do ano, e isso me tornou obcecada por termorregulação e por peças que não esbranquiçam com o suor, que não ficam pesadas. Quando você treina num lugar quente e ainda quer usar a mesma peça depois na praia ou num café à beira-mar, a exigência sobe. Muitos dos critérios da Atlea vieram de testar as peças na minha própria rotina, num clima que não perdoa tecido ruim.
Qual é o erro que você mais vê mulheres cometendo ao comprar roupa de treino?
Comprar pelo visual e descobrir o resto tarde demais. A peça é linda na foto, chega em casa, e só no primeiro agachamento a mulher percebe que fica transparente, ou que o cós enrola, ou que marca. O visual importa, claro, mas ele é o mais fácil de acertar. O difícil, e o que realmente muda a experiência de treinar, são as coisas que só aparecem no uso: opacidade em amplitude máxima, estabilidade do cós, comportamento do tecido depois do suor. É exatamente onde eu concentro a maior parte da minha atenção.
Disciplina é uma palavra que aparece muito quando você fala da marca. O que ela significa para você?
Para mim, disciplina não é sobre motivação, é sobre presença nos dias difíceis. Treinar cinco vezes por semana há anos não é sobre acordar sempre inspirada — é sobre aparecer mesmo quando não estou. A Atlea foi construída com essa mesma lógica: não desistir do detalhe difícil só porque seria mais fácil aceitar o suficiente. Disciplina, no treino e na marca, é escolher o certo repetidamente, sobretudo quando ninguém está olhando e seria simples fazer diferente.
Como é ser mulher, fundadora e cliente ao mesmo tempo?
É exaustivo e é o meu maior trunfo. Exaustivo porque eu nunca desligo o olhar crítico: uso a peça e, ao mesmo tempo, estou avaliando cada detalhe dela. Mas é meu trunfo porque me impede de me distanciar de quem vai usar. Muitas marcas são pensadas por gente que não usa o produto no dia a dia. Eu vivo o problema que tento resolver. Quando uma cliente reclama de algo, eu quase sempre já senti aquilo na pele, no meu próprio treino. Essa proximidade é o que me mantém honesta.
Teve algum momento em que você pensou em desistir?
Vários, principalmente durante os três anos de desenvolvimento. Teve fases em que um tecido que eu achava perfeito falhava num teste de durabilidade, e eu tinha que voltar à estaca zero. É frustrante ver meses de trabalho não passarem no próprio critério. Mas era exatamente nesses momentos que eu lembrava por que tinha começado: para não lançar mais uma peça mediana. Cada reprovação dolorosa era a prova de que os critérios estavam funcionando. Desistir do detalhe difícil teria sido trair a razão inteira de existir da marca.
O que você diria para uma mulher que está começando a treinar agora?
Que ela não precisa de nada perfeito para começar — nem do corpo perfeito, nem da roupa perfeita, nem do plano perfeito. Precisa começar com o que tem e priorizar a constância acima de tudo. A única coisa em que eu insistiria desde o primeiro dia é não usar uma peça que a faça se sentir insegura, porque insegurança com a roupa rouba a atenção que deveria estar no treino. Fora isso, começar imperfeito e continuar é infinitamente melhor do que esperar o momento ideal que nunca chega.
O que uma peça precisa cumprir para você aprovar?
Ela precisa passar em critérios que eu levo muito a sério. Opacidade total na amplitude máxima do movimento, não só em pé. Um cós que sustenta sem apertar o abdômen a ponto de incomodar. Tecido que se comporta bem depois do treino, não só durante, porque a peça fica no corpo muito mais tempo que a hora de exercício. E durabilidade real, medida em muitos usos e lavagens, não na primeira impressão. Se falha em qualquer um desses pontos, não importa quão bonita seja, não entra. Esses critérios encarecem e atrasam a produção, e eu aceito isso de propósito.
Você treina com foco em glúteos e pernas. Isso molda o design das peças?
Totalmente. Como eu treino pesado justamente essa região, sou obcecada com o que acontece com a peça no agachamento profundo, na elevação pélvica, no levantamento terra. É nessa amplitude extrema que a maioria das leggings falha, ficando transparente ou escorregando. Meu treino é o laboratório mais duro que a peça enfrenta. Se ela sobrevive aos meus dias de perna, sobrevive a quase tudo. Não é coincidência que a opacidade em amplitude máxima seja o critério que mais reprova modelos.
Depois de tudo, o que te deixa mais orgulhosa dessa jornada?
De não ter feito concessões no que importa. Toda vez que uma cliente me conta que finalmente encontrou uma legging que não fica transparente no agachamento, ou que usou a peça o dia inteiro e ela continuou confortável, eu sinto que os três anos de teimosia valeram a pena. A Atlea não é a maior marca nem a mais barata, e nunca quis ser. Ela é a marca que eu queria ter encontrado quando comecei a treinar e não achava. Construir isso, com honestidade, é o que me deixa em paz com o caminho que escolhi.
Ao longo da conversa, uma linha se repete: a recusa de fazer concessões no que importa, mesmo quando o atalho seria mais fácil e mais lucrativo. É essa teimosia, aplicada tanto ao treino quanto à marca, que dá à história da Atlea sua coerência. Para quem quer conhecer os critérios que Tainara aplica em cada peça, vale a leitura do texto sobre como avaliar a qualidade de uma peça fitness. E, para entender por que a constância que ela defende no treino importa mais do que a intensidade, a Organização Mundial da Saúde reforça o papel do movimento regular na saúde a longo prazo.





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